Tem horas que a gente reza 24 horas

 Sou grata por tantas coisas na minha vida que seria até difícil listar todas.

Acontece que mesmo sendo grata a gente tem vontades, desejos, anseios e às vezes esses anseios tiram a paz.

Já estava ansiosa com a viagem porque praticamente todos os gastos vão cair nas minhas costas e minhas costas não são tão largas.

A Maui não consegue decidir o que quer fazer na vida e cada opção parece pior que a outra e só me cabe ficar quieta porque ela não aceita nada do que sugiro.

Ela quer que dinheiro caia do céu e quem não quer? Eu também adoraria que de repente caísse dinheiro em cima de mim para resolver problemas para os quais eu preciso dele.

Só que a gente sabe que isso não acontece.

Não entra trabalho de tradução e alunos estão saindo.

Mas eu sei que a vida é como maré, uma hora enche, outra esvazia e depois enche de novo.

Fiquei com muita raiva de mim por ter emprestado o dinheiro para a Tereza. Emprestei porque na hora não pensei que a Julia recebeu 100 mil do ex-marido e poderia perfeitamente emprestar para a mãe, já que a mãe se encrencou por causa dela.

Mas agora já foi. Emprestei e sei que ela vai me pagar, mas esses dias têm sido de não colocar o pé para fora de casa para não gastar.

A bomba de hoje foi um camarada entrar em contato com a Maui para dizer que o Phillip a está traindo com a mulher dele que é mãe de uma coleguinha de classe da Vivi.

Puta que pariu, ele podia dormir com quem ele quisesse, mas com uma mulher casada e mãe da colega da Vivi é pra matar o filho da puta.

E a Maui sem dinheiro para pagar advogado para tirar o fdp da casa dela.

Ele já tinha traído em Vegas, sabia que o casamento não tinha volta, mas precisava trair com a mãe da colega da Vivi?

O homem tem provas. Contratou um investigador e tem até vídeos dos dois dormindo juntos.

Pior que isso, tem fotos dela entrando na casa da Maui quando a Maui não estava.

Minha filha tem sérios problemas de saúde mental e já estava lidando com a primeira traição e o fato de ter sido demitida a custa de medicamento, terapia e o meu ombro.

E eu nessa ansiedade maldita que não consigo dormir e como não durmo eu não vou à academia e aí eu me cobro e me cobro e me cobro.

Não durmo de noite, não durmo de dia, simplesmente pareço um zumbi com olheiras que chegam no queixo.

E daí eu penso que não tenho com quem conversar.

Simplesmente não tenho.

Eu considerava a Meg minha amiga, agora considero minha conhecida.

Ou seja, eu tenho duas amigas: a Ana e a Tereza.

A Tereza está vivendo toda a pressão do câncer da Julia, do término da casa e sequer me manda uma mensagem para perguntar como estou.

A Ana? É um amor mas vive em Nárnia.

O mundo da Ana é tão confuso, tão fora da caixinha que não dá pra ter uma conversa séria com ela.

Aí eu me pergunto: quando eu me tornei essa pessoa?

Quando eu me tornei essa ostra que não tem para onde abrir?

Quando eu perdi a vontade de conviver com seres humanos?

Foi algo que aconteceu ou foi uma sucessão de coisas que foi me levando pro poço?

E aí vem a pergunta mais difícil: como sair do poço?

Terapia!

Ah, terapia é ótimo, mas não tenho dinheiro para isso.

É quase como estar deprimido e ficar mais deprimido porque não tem dinheiro para a terapia.

E a cabeça volto pro looping.

Meu consolo é saber que tudo isso passa.

Pode até demorar um pouco, mas passa.

Piada de tiozão: tudo passa, até a uva passa.

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